Em áudio e documentos obtidos por VEJA, ex-banqueiro afirma ter pago os recursos em esquema com ex-tesoureiro do PT e o ministro Alexandre Padilha.
O ex-banqueiro Daniel Vorcaro afirmou ter negociado com João Vaccari Neto, ex-tesoureiro do PT, pagamentos em troca de acesso a fundos de pensão de servidores federais, segundo reportagem da revista VEJA.
De acordo com a publicação, mensagens e documentos atribuídos a Vorcaro indicariam um suposto pagamento de R$ 30 milhões em dinheiro vivo para despesas de produção de um documentário sobre Lula no exterior. Parte dos recursos também teria sido destinada ao Instituto Lula, administrado por Paulo Okamotto.
As alegações teriam sido apresentadas em um anexo entregue à Procuradoria-Geral da República (PGR), em junho de 2026, durante uma tentativa de acordo de delação premiada. Segundo a VEJA, a proposta não avançou por falta de provas suficientes.
Integrantes da Polícia Federal disseram à CNN que a proposta foi recusada por ausência de elementos mínimos que dessem credibilidade às declarações. A defesa de Vorcaro, por sua vez, teria alegado possuir mensagens, registros de retiradas de dinheiro e informações sobre os locais das supostas entregas.
Como teria começado a negociação
Segundo a VEJA, a aproximação de Vorcaro com Vaccari teria sido articulada por Augusto Lima, então CEO do Banco Master. O senador Jaques Wagner (PT-BA), que na época liderava o governo Lula no Senado, teria intermediado o primeiro encontro.
Em trecho do documento atribuído a Vorcaro, ele afirma que foram discutidos pagamentos para viabilizar o credenciamento do banco junto a fundos de previdência ligados ao Banco do Brasil e à Caixa, além da Previ.
O ex-banqueiro teria relatado que os valores incluiriam cerca de R$ 30 milhões em dinheiro vivo para despesas do documentário sobre Lula e repasses ao Instituto Lula.
O filme mencionado é Lula, dirigido por Oliver Stone, que reúne relatos de amigos e aliados do presidente.
Suposta cobrança de 10% sobre operações
Ainda segundo a revista, Vaccari teria exigido uma comissão de 10% sobre os valores que o Banco Master conseguisse captar junto a fundos de previdência ligados à Caixa, ao Banco do Brasil, à Petrobras e aos Correios.
A estimativa mencionada no relato seria de R$ 1 bilhão destinado ao PT e R$ 9 bilhões ao Banco Master. Esses valores fazem parte das alegações atribuídas a Vorcaro e não representam, por si só, operações comprovadas.
Em um áudio citado pela reportagem, Vorcaro teria afirmado que Augusto Lima faria um adiantamento a Paulo Okamotto, do Instituto Lula, e que também haveria dinheiro destinado ao filme.
Em outra gravação, o ex-banqueiro teria comparado o suposto repasse ao documentário sobre Lula com o patrocínio de Dark Horse, produção sobre Jair Bolsonaro que também recebeu recursos do Banco Master. Segundo ele, o pagamento relacionado ao filme sobre Lula teria ocorrido de maneira irregular, diferentemente do patrocínio ao outro longa. A data do áudio não foi esclarecida na reportagem.
Padilha e outros interlocutores são citados
A reportagem também menciona Alexandre Padilha, então ministro da Secretaria de Relações Institucionais da Presidência, e Olavo Noleto, que ocupava o cargo de secretário-executivo da pasta.
Conforme o relato atribuído a Vorcaro, um operador identificado como “Júlio” teria facilitado contatos com dirigentes de fundos de pensão e apresentado o banqueiro a Noleto.
Em uma mensagem citada pela revista, o empresário Walfrido dos Mares Guia teria informado a Vorcaro que Noleto havia gostado de conhecê-lo.
Vorcaro também teria relatado uma visita ao Palácio do Planalto para conhecer Padilha e a realização de pelo menos dois jantares com o ministro.
Segundo a versão apresentada pelo ex-banqueiro, interlocutores teriam afirmado que o acesso a fundos como Previ, Petros e Postalis dependeria de pagamentos de 10% sobre os recursos captados. A alegação não comprova que os citados tenham participado de um esquema ou recebido valores.
Mensagens mencionam reuniões e pagamentos
A VEJA relata que mensagens trocadas entre Vorcaro e o contato identificado como Júlio tratavam de reuniões com dirigentes de fundos de previdência e da tentativa de concluir operações financeiras.
Em 8 de abril de 2024, Vorcaro teria cobrado atualizações sobre contatos com a Petros, o Postalis e a Previ. Nas conversas, Júlio teria informado que os contatos estavam avançando e que novas reuniões seriam organizadas.
Em 29 de abril daquele ano, o Banco Master entrou na chamada “lista exaustiva”, documento que relaciona instituições financeiras autorizadas a receber recursos de fundos de previdência estatais.
Segundo a reportagem, mensagens também mencionariam um pagamento de R$ 500 mil na mesma data. A publicação relaciona a conversa à autorização para operar com os fundos, mas a coincidência temporal, isoladamente, não comprova uma relação de causa e efeito.
Tentativa de encontro com Lula
Mensagens de outubro de 2024 também mencionariam uma possível reunião entre Vorcaro e Lula. Em uma delas, Júlio teria dito que o presidente receberia o banqueiro e que a agenda estava sendo organizada por meio de Olavo Noleto.
A reportagem, entretanto, não apresenta confirmação de que o encontro tenha efetivamente ocorrido.
Apesar das articulações relatadas, os negócios pretendidos não teriam avançado como esperado. Uma tentativa de negociar R$ 500 milhões em letras financeiras com a Caixa Econômica Federal teria sido comprometida após o vazamento de informações.
Negociações teriam perdido força em 2025
Mensagens de junho de 2025 indicariam frustração de Vorcaro com a falta de resultados. Em uma das conversas, ele teria reclamado de mais de 12 meses de tentativas sem concluir operações.
O contato identificado como Júlio teria atribuído as dificuldades à repercussão de notícias sobre suspeitas de fraudes envolvendo o Banco Master.
Vorcaro teria estabelecido um prazo para que alguma operação fosse concluída e ameaçado encerrar o trabalho caso não houvesse resultados.
Lula e Padilha negam irregularidades
Procurados pela CNN, o Palácio do Planalto, o Instituto Lula e a assessoria de Alexandre Padilha foram questionados sobre as alegações. Olavo Noleto informou que não se manifestaria. A emissora também tentou contato com Vaccari Neto, Walfrido dos Mares Guia e Okamotto.
À VEJA, Lula afirmou que jamais solicitou ou recebeu vantagem financeira de Vorcaro e que não autorizou terceiros a receber recursos em seu nome. Padilha também negou relação com o ex-banqueiro.
As alegações relatadas por Vorcaro ainda precisam ser confrontadas com provas e apuradas pelas autoridades. A existência de mensagens, encontros ou contatos políticos não comprova, por si só, a prática de corrupção pelos envolvidos.
Fonte principal: revista VEJA, com informações complementares atribuídas à CNN.
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